Julho Verde: mês de conscientização sobre Dor Crônica reforça tratamento multidisciplinar

Dor crônica altera funcionamento do sistema nervoso e exige abordagem que vai além do alívio dos sintomas, segundo especialista.

Por muito tempo, sentir dor por meses ou anos foi encarado como algo “normal” ou consequência inevitável do envelhecimento. Hoje, a medicina mostra que essa percepção está equivocada. A dor crônica é uma doença reconhecida, complexa e que exige tratamento especializado.

O dia 5 de julho passou a integrar oficialmente o Julho Verde, mês nacional de conscientização sobre a dor crônica, condição que afeta milhões de brasileiros e figura entre as principais causas de incapacidade no mundo. A iniciativa amplia a visibilidade da doença e reforça a necessidade de diagnóstico precoce, acesso ao tratamento e atendimento multidisciplinar, inclusive no Sistema Único de Saúde (SUS).

Segundo o médico especialista em dor Dr. Luiz Severo, o reconhecimento da dor crônica como uma doença representa um avanço importante para pacientes que, muitas vezes, convivem durante anos com sofrimento físico e emocional antes de receberem um diagnóstico adequado.

“A dor crônica vai muito além de um sintoma. Ela provoca alterações no funcionamento do sistema nervoso e passa a ser uma doença que precisa ser tratada de forma ampla, considerando não apenas o local da dor, mas também o cérebro, as emoções e a funcionalidade do paciente”, explica.

Durante décadas, acreditou-se que a intensidade da dor era proporcional ao tamanho da lesão identificada em exames como ressonância magnética ou tomografia. No entanto, os avanços científicos demonstraram que essa relação nem sempre existe. Caracterizada por persistir por mais de três meses, a dor crônica promove mudanças no cérebro, na medula espinhal e nos nervos periféricos. Esse processo, conhecido como sensibilização central, faz com que o sistema nervoso permaneça em constante estado de alerta, amplificando estímulos que antes não seriam percebidos como dolorosos. Em muitos casos, a lesão inicial já cicatrizou completamente, mas o cérebro continua interpretando sinais comuns como dor.

“Por isso, muitas vezes encontramos pacientes com exames praticamente normais, mas que apresentam dores intensas. A explicação está no funcionamento do sistema nervoso, e não apenas na estrutura do corpo”, destaca o especialista.

Além da dor persistente, as alterações neurológicas provocadas pela doença afetam diversas áreas responsáveis pela memória, atenção, sono, humor e comportamento. Como consequência, muitos pacientes também desenvolvem ansiedade, depressão, insônia, fadiga intensa, dificuldade de concentração, perda de memória recente e redução significativa da qualidade de vida. “O paciente não está imaginando a dor. Existe uma alteração real no processamento cerebral. É uma condição neurológica complexa que precisa ser compreendida dessa forma”, reforça Dr. Luiz Severo.

As principais diretrizes internacionais recomendam uma abordagem multimodal, reunindo diferentes profissionais para tratar todos os fatores envolvidos na dor. Além do médico especialista em dor, o tratamento pode incluir fisioterapeuta especializado em reabilitação, psicólogo, nutricionista, educador físico e equipe de enfermagem capacitada para o acompanhamento terapêutico e realização de procedimentos.

Além da reabilitação clínica, diversos procedimentos minimamente invasivos têm proporcionado resultados importantes para pacientes com dor persistente, como aplicações de toxina botulínica, infiltrações guiadas por imagem, bloqueios anestésicos, radiofrequência para tratamento da dor e implantes de estimuladores medulares e periféricos em casos selecionados. Essas técnicas permitem reduzir a intensidade da dor, melhorar a mobilidade e diminuir a necessidade do uso contínuo de medicamentos.

Outro dos grandes avanços da medicina da dor é a neuromodulação, tecnologia que atua diretamente nos circuitos cerebrais responsáveis pelo processamento da dor. Entre as terapias disponíveis estão a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS), estimulação magnética transcraniana (TMS), neuromodulação do nervo vago, microcorrentes elétricas, fotobiomodulação por laser terapêutico, campos eletromagnéticos, sistemas superindutivos e, em casos específicos, estimuladores medulares e periféricos implantáveis.

Segundo Dr. Luiz Severo, essas técnicas não têm como objetivo apenas aliviar sintomas, mas favorecer a reorganização do sistema nervoso, contribuindo também para melhora do sono, da ansiedade, do humor e da funcionalidade.

“O tratamento da dor evoluiu muito nos últimos anos. Hoje sabemos que cuidar da dor significa cuidar do cérebro, do corpo, das emoções e da vida do paciente como um todo. Nosso objetivo não é apenas reduzir a intensidade da dor, mas devolver autonomia, qualidade de vida e permitir que cada paciente volte a realizar suas atividades com dignidade. Essa é a principal mensagem do Julho Verde”, conclui Dr. Luiz Severo.

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